19 de agosto de 2020

CAPELA DO HOSPITAL EXISTE HÁ 123 ANOS

 

Em dia comemorativo de S. José, 19 de Março de 1897, o Hospital da Misericórdia de Fafe, abriu as suas portas ao público para festejar o seu patrono, S. José, e proceder à inauguração da nova capela, doada pelo benemérito, “brasileiro” de torna-viagem, José Florêncio Soares.

O acto, resumido a uma missa cantada e bênção, foi precedido por um desfile de operários das fábricas do “Ferro” e do Bugio, encabeçado pela Banda dos Bombeiros Voluntários de Fafe, que, durante a tarde, tocou no largo fronteiro ao edifício do Hospital.

O semanário “O Desforço” descreveu o novo “oratório”:

«E’ um trabalho lindissimo, d’um gosto artístico extraordinario. Fica á direita do salão aonde se acham colocados os retratos dos benemeritos fallecidos e aonde se realizam as reuniões da meza, e bem mostra que presidiu áquella obra de bom gosto de quem tem interesse pelo engrandecimento d’aquella casa de caridade.

O altar encerra no seu oratório a imagem do patrono d’aquella casa, - S. José – uma imagem nova, tendo á frente uma elegante cruz d’onde pendia um Christo d’uma escultura explendida, ladeada por seis grandes castiçaes. Ás portas ricas cortinas, e na principal, encimada por uma larga bandeira, destacava-se uma combinação de vidro de diversas cores.

O soalho entapetado, e pelas margens diversos vasos de plantas e flores mimosas.

Pela nossa parte registramos aqui a dádiva do snr. José Florencio, porque é digna d’isso.»

Fonte: jornal “O Desforço”, 25 de Março de 1897


16 de agosto de 2020

SANTO OVÍDIO CELEBROU O PADROEIRO

 


Na manhã deste domingo, 16 de Agosto, dia do padroeiro da Capela de Santo Ovídio, o advogado do mal dos ouvidos desceu do seu trono, para marcar presença de honra na missa campal realizada no Parque de Lazer.

Uma celebração muito concorrida, onde foram respeitados, com rigor, os cuidados recomendados em plena crise sanitária.
Uma celebração atípica, que igualmente honrou o Santo Padroeiro do Monte Sagrado de Santo Ovídio.

Este ano, devido às restrições da Pandemia, a Festa exclusivamente Religiosa a Santo Ovídio, acolheu outros quatro padroeiros das restantes capelas da freguesia de Fafe: São Pedro de Pardelhas, São João da "Fábrica do Ferro", Nossa Senhora da Granja e Santo António da Cisterna.

Uma modesta sessão de fogo de artifício encerrou os festejos de Santo Ovídio neste 2020 de má memória.


















Santo Ovídio



São João do Ferro


São Pedro de Pardelhas



Santo António da Cisterna


Nossa Senhora da Granja




















15 de agosto de 2020

POSTAIS DE FAFE DOS ANOS 20

 

Capela de Santo Ovídio

Reprodução de postal ilustrado de 1922


…”A linda estancia de Stº Ovidio, com a sua capela construída em 1870, sobre um outeiro onde foram encontradas moedas romanas, com o seu escadorio largo e de ascenção, ladeado de arvoredo, é dum efeito deslumbrante na fotografia.
Nesta vêem-se os editores Alberico Silva double de jornalistas e engenheiro, Marques dos Reis, espreitando para longe, junto da sua maquina que fotografou as paisagens; os edifícios e as ruas, e sentado, um pouco acima, o contista Laurentino Matos, sempre creança, sempre infantil, num arrubamento místico de sonhador”.

In: jornal “Progresso de Fafe”, 2 de Abril de 1922

 


5 de agosto de 2020

GRAVURA DA SENHORA DE ANTIME, SÉCULO XIX


Foto: Museu dos Biscainhos


Museu: Museu dos Biscainhos

N.º de Inventário: DEP3036 MEP ou 3076 MEP

Supercategoria: Arte

Categoria: Gravura

Denominação: Nossa Senhora de Antime

Autor: Desconhecido Oficina / Fabricante: A Gouveia Féliz, litografia.

Datação: XIX d.C. - Século XIX.

Suporte: Papel

Técnica: Gravura

Dimensões (cm): altura: 22,3; largura: 16,4;Descrição:

Gravura monocromada a traço azul, que representa um retábulo onde se insere a imagem em estatuária da Virgem Maria com o Menino Jesus sob invocação de Nossa Senhora de Antime. A Virgem apresenta-se de corpo inteiro, de pé, com o Menino na mão esquerda e segura um ramo de flores na direita, ambos coroados e vestidos e penteados segundo a moda do século XIX; Nossa Senhora aparece com um vestido comprido, em vez da habitual túnica, e com um manto, as duas peças decoradas com motivos florais, e um véu sobre a cabeça; e o Menino Jesus também apresenta uma espécie de vestido, usual em crianças nobres do século XIX. O retábulo é ricamente ornamentado: as duas colunas são como que constituídas por uma sobreposição de elementos decorativos variados de estilo rococó, onde surgem cachos de uvas, putis, flores, faixas, elementos híbridos fantasiosos, entre outros de difícil caracterização, assim como a parte superior que apresenta um pequeno frontão composto por duas volutas, e ao alto uma espiga de milho (que terá eventualmente um significado relacionado com a localidade da igreja onde está o retábulo).
Incorporação: Outro - Museu de Etnologia do Porto

Fonte: catálogo do Museu dos Biscainhos, Braga

16 de junho de 2020

CAFELÂNDIA A HISTÓRIA DAS CIGANAS E O INTRÉPIDO CHEFE NUNES





«As ciganas foram à Cafelândia. Trocaram uma nota de mil escudos; depois pediram que lhe trocassem uma de 100; a seguir trocaram uma de 50; e seguidamente outra de 20.
E não trocaram mais notas, porque não as há, superiores a 1.000 nem inferiores a 20.
E o nosso amigo Daniel Correia foi muito gentil com as ciganas; e elas também; tão gentis, tão gratas, tão amáveis que, no meio daquela balbúrdia toda de troca mais esta, destroca mais aquela, caiu numa natural confusão, o que teve como consequência elas “agasalharem” uma notinha de 1.000$00.

As ciganas devem ser versadas em prestidigitação.
E lá se foram, muito satisfeitas, sem deixar rasto; mas não contavam com o fantasma do Chefe Nunes, que ao receber a queixa coçou a cabeça, olhou para a Lua, farejou os ares e, subitamente, embarcou num táxi, com rumo a Guimarães.

Em trânsito, averiguou que as “honestas” ciganas tinham embarcado na camionete, em direcção a Braga. Mas o Chefe, com a cachimónia em transes de raciocínio agudo, teve a intuição de que as ladras não iriam meter-se em Braga, meio grande e perigoso para refúgio de rapinantes; e a pensar assim, pelo caminho, teve uma crise de “faro”, mandou virar o carro para um caminho estreito, que vinha desaguar na estrada nacional, um pouco além de Guimarães e foi encontrar, logo adiante, um acampamento de ciganos, onde estavam, mui contentes da vidinha, as “honestíssimas” gatunas, que tiveram de voltar à terra onde iniciaram a sua aventura. E assim, ficaram a saber, daqui para o futuro, que aqui em Fafe “há pardal”! E o “pardal” é o Chefe Nunes, que dispensa a Judiciária, a Scotland Yard e o F.B.I.! Aqui só se pode roubar, com ordem dele, e ele não a dá, e está no seu direito!

Ora este terror dos gatunos só não foi capaz de evitar que o Almuinha fosse de Fafe a Caracas, na Venezuela, roubar 46 Km. de linha férrea à C.P. daquela República da América do Sul! E também ainda não descobriu “onde está o gato” do filósofo da Cumieira…
Portanto, Snrs. Gatunos: Procurai outro campo de acção, que em Fafe não levais vida! Pelo menos enquanto cá estiver o Chefe Nunes!

Bem, isto só se entende com gatunos de “alto coturno”, dos da “alta escola”, de “alto nível”; porque, como criminalista insigne, não vai agora alugar táxis e deslocar-se a Guimarães, a Felgueiras, à Lixa, a Amarante e até a Vila Real, por causa dum miserável ratoneiro de hortaliças e de cuecas a secar nos quintais.
O Chefe Nunes só busca “caça grossa”, a tal caça “de altanaria”. Desde que ele cá está, eu já nem fecho as portas.
Perdi o medo aos gatunos!

OLHO VIVO

In : jornal “O Desforço”, Maio de 1966

9 de abril de 2020

LENDA DO MATADOR DA BICHA-FERA EM RIBEIROS (FAFE) Uma versão do século XIX


Grafite na Praça das Comunidades, alusivo à lenda da "Bicha das Sete Cabeças"



«Vós que amais as peregrinas histórias dos duendes e lobisomens que uma boa velhota, pelo serão das longas noites de inverno, conta para afugentar o sono. Ou vós que, achacados a devaneios, gostais de sonhar acordados e flanar a imaginação pelo mundo dos sonhos e das quimeras, fantasiando heróis de lança em punho, matadores de monstros; ou vós, mais práticos e positivos, que tendes por passatempo e regalo mergulhar o espirito em o nevoeiro dos mitos e das lendas, para, depois de reduzido o maravilhoso às proporções naturais, poderdes descobrir, qual historiador, a origem de um povo; vós – digo, para quem for de prazer e gosto semelhante género de impressões – vinde ouvir a lenda que corre em Ribeiros, do homem que matou a Bicha-fera e as suas sete filhas e também o caso do grande milagre de Nossa Senhora Santa Maria de Ribeiros, que na freguesia deste nome por esta ocasião aconteceu.
É uma história que não foi inventada: vazada nos moldes dos velhos contos populares, tão sabida e verídica como passa na freguesia, ela aí vai, tal como em tempos de criança a ouvi contar a um lavrador ribeirense, por sinal havido por astrólogo e mui sabedor de grandes coisas.

Em tempos muito remotos (ainda a mourisma cá não tinha vindo!) esta freguesiaque tão povoada e cultivada é agora, era então uma grande mata de árvores como gigantes, e tão velhas como o mundo. Cheia de silvados, ribeirais e precipícios medonhos, alumiados aqui e ali por algum raio de sol que ao pino do meio dia a custo rompia o arvoredo, era habitada só por aguias e corvos negros, por bichos bravos e animais ferozes, que urravam e bramiam e enchiam as gentes de terror.
E ninguém havia que, de medo, se atrevesse a passar lá por perto.
Mas um cristão, um guerreiro que tinha combatido muito contra os hereges, andava peregrinando de terra em terra à procura de um lugar ermo e agreste para aí passar a vida em penitência. O acaso ou (o que é mais certo) a Providencia trouxe-o a estes sítios que achou acomodados ao seu intento, e assentou morada no lugar que hoje chamam do Paço.
Muito devoto de Nossa Senhora construiu aí, por suas mãos, uma pequena ermida, a que deu a invocação de Santa Maria de Ribeiros, que muito venerava. Aí vivia entregue à penitencia durante a noite, e os dias passava-os na santa ocupação de arrotear terrenos, pastorear gados, e dizimar os animais daninhos.
De entre estes, o mais temido era uma cobra muito grande – uma serpente! – que um vigário antigo dizia chamar-se Bicha-fera.



Sarcófago na fachada Norte da igreja de Ribeiros onde, por
tradição se diz, foi sepultado o "matador da bicha-fera"


Tinha ela o antro no sítio em que agora é a igreja, e quando saia (o que acontecia sempre por entre o lusco-fusco) dava um assobio tão grande e terrível que estarrecia tudo: as aves, espavoridas, levantavam logo voo, os animais bravios recolhiam às cavernas, e ao longe os homens ficavam tolhidos de susto.
Porque ela, como um monstro, era grande e disforme, e as cabeças de gado que lhe passassem perto, como carneiros, porcos, touros, devorava-as em menos de um credo, com uma destreza e força nunca vistas.
Então o santo homem, tocado por Deus, resolveu matar a Bicha-fera: jejuou a pão e agua trinta dias consecutivos, confessou-se, e, depois de preparado para a morte e firme na fé de que de Deus lhe viria a força, vestiu a armadura de ferro, pegou no alfange, e, ao empardecer da tarde, foi esperá-la.
Vinha ela de cabeça no ar arrastando pesadamente o corpo, que era do comprimento das mais altas traves, e deitava pela boca fora baforadas de um fumo negro, que ao longe se desfazia em largo e escuro nevoeiro.

Mal se avistaram, a Bicha-fera arremete para ele, e crava-lhe os dentes no ferro da armadura que lhe cobria o corpo: o ferro range, estala, quebra, faz-se em astilhas, enquanto ele fere, rasga, corta, abrindo-lhe fundas feridas. E sem perder o sangue frio, no momento em que ela retirava a boca e a reabria para agarrar com mais força, enterrou-lhe pela imensa goela a baixo alfange e braço inteiros.
O monstro, soltando um rugido cavo e profundo, caia ensopado num rio de sangue infecto.
Senhor do campo e da victoria se julgava já o santo homem quando de repente ouviu silvos estridentes, que pareciam sair das profundezas da terra; não sabendo o que era, todo receoso, disse de si para consigo: Santíssima Virgem Maria, aquilo parece coisa de Belzebu…
Dizendo isto, benzeu-se, persignou-se, e passou a fazer o credo em cruz quando parado ficou na reza ao ver, numa carreira desabalada e já muito perto de si, as sete filhas da Bicha-fera, que vinham vingar a morte da mãe, que corriam velozes como o raio ao grito de dor que a mãe soltara no derradeiro alento.
Tinha já caído a noite, e ele, a quem nunca falecera o ânimo, viu-se então atónito e perdido: sentiu pelo corpo grandes arrepios, os cabelos em pé, e nas veias o sangue gelou de pavor.

Mas lembrando-se de recorrer ao auxílio divino, voltou-se para a ermidinha, e disse em voz trémula, mas com toda a fé da sua alma: Senhora Santa Maria de Ribeiros, valei-me!
Palavras não eram ditas desprendeu-se do céu uma estrela tão reluzente como a estrela da manhã, e vem lá das alturas coim a rapidez da flecha cortando os ares e deixando um rasto luminoso pousar em frente do campo do combate, mesmo sobre o penedo que está ao canto do adro, ao lado da torre da igreja.

E à vista da claridade que espalhava a estrela as filhas da Bicha-fera ficaram suspensas, olhando como que encantadas para aquela estranha luz que parecia fascina-las, e que as tornara imoveis e alheias a quanto se passava em volta.
E neste meio tempo o homem de Deus, reanimando-se com a súbita aparição da estrela e o seu braço cobrando vigor, esquartejou-as, uma a uma, sem que elas fizessem outro movimento além de um ligeiro estremecimento a cada cutilada que lhes descarregava.
Depois, daí a um nada, após a matança, para agradecer a Deus a victória que acabava de obter por intercepção de sua mãe, a Virgem Maria, ajoelhou e orou.
A sua oração foi ouvida, porque, ao terminá-la, a estrela, subindo aos ares, foi ondulando pelo espaço até desaparecer à sua vista, distinguindo-se daí a pouco,  nas lufadas do vento, os sons de uma música desconhecida, que eram sem dúvida o coro dos anjos que levavam a sua oração aos pés de Deus.

Passados momentos dirigiu-se para casa muito impressionado e doente; e daí a três dias, a sua alma, desprendendo-se do corpo, começou a esvoaçar no espaço, seguindo a estrada do céu que três dias antes a estrela lhe indicara.
Nesta lenda, que para o comum dos habitantes da freguesia passa por um facto averiguado, um fundo de verdade existe, como em todas: o facto nu, simples, racional despido de alucinação religiosa.

Uma antiga tradição ensina que o santo homem dispusera, ordenando que o produto dos seus bens fosse aplicado na construção de uma igreja no sítio em que aconteceu o milagroso caso, que os seus ossos se guardassem em túmulo, e anualmente se rezasse por sua alma um responso, para o qual deixara o legado de cinco alqueires de pão meado.
E como a confirmar a verdade da tradição, lá se vê ainda, encravado na parede da igreja e junto à porta lateral norte um tosco túmulo de pedra a servir-lhe de jazigo, que pelo modo como está disposto e construído mostra ser coevo da fundação da igreja. O mesmo lugar em que a lenda diz ele vivera e passara o resto dos seus dias religiosamente ainda cumpre o legado, pagando a referida pensão à igreja, e o responso é anualmente rezado e satisfeito pelo reverendo pároco no segundo domingo de Agosto com água benta espargida sobre o túmulo.»

Z.
In: jornal “O Desforço”,  1895




8 de abril de 2020

A PÁSCOA FAFENSE NA ALDEIA UM APONTAMENTO COM 110 ANOS


Desenho publicado na "Illustração Portuguesa", 1904
(Apenas para ilustrar)


«A PASCHOA NA ALDEIA

Domingo de Paschoa! Que tropel de recordações suavíssimas não desperta este dia a quem, no meio d’innocentes folguedos, sentiu correrem-lhe no campo os dias da meninice!
Ainda hoje me encanta os ouvidos, coando-me n’alma uma alegria bem doce a toada festival dos sinos «repicando a alleluia»!
E que coração tão de gelo ou tão requeimado pelo tufão da desdita, ao qual não causem grato estremecimento, as vozes amigas do campanário d’aldeia?...
Se ha ahi algem que fique impassível, não são por certo os pequenos camponezes; pois já desde as vesperas  esfervilhão, riem e saltam ao lembrarem-se que breve irão beijar a mão da madrinha, recebendo a bênção e o appetecido folar.
E ella – a madrinha em pé na soleira da porta, ao vel-os partir tão contentes, agitando no ar as pequenas «regueifas», sentem irradiar-lhe do coração ao rosto um reflexo de serena alegria, adejando-lhe aos lábios um sorriso que parece dizer : - Pobres creanças! São curtos os vossos desejos, é facil a vossa felicidade!

Mas neste dia abençoado nem só os pequenos se alvoroçam. Na aldeia é tudo azáfama. Especialmente nas raparigas, que actividade!
Umas espanam os moveis e as paredes; outras tapetam de rosmaninho e rosas desfolhadas o pavimento da casa; estas põem toda a sua sciencia e cuidado em armar a meza do estylo que já se acha coberta de toalha alvíssima circundada de bellas florinhas do monte, sobresahindo ao centro um pomo coroado por uma moeda ou por um lindo ramalhete (e neste quanto esmero! Pois é de costume ser offerecido ao senhor abbade, que nunca deixa de mostral-o aos circunstantes, elogiando o aprimorado da obra;) aquelles, emfim, andam n’um rodopio procurando no quintal flores, para formarem ramos.
A contrastar com tanto movimento lá está um velho de cans veneráveis, levemente encrespadas pela aragem, sentado no trono d’um carvalho, a meditar… (quem sabe?...) talvez nas paschoas do seu tempo…

Mas eis que o sino repica.
Como por encanto cessa um momento todo o bolicio.
E’ o  «Compasso» que sahe.
Tudo corre ao montículo mais proximo.
- Elles lá vêem, lá vem o «Compasso»! – exclamam, todas as vozes: desçamos, desçamos, que não tardam ahi comnosco.
N’um instante eil-os em casa. E toda a pressa foi necessária; pois já se ouve bem distincto o som da campainha.

Chegou.
Que luzida comitiva!
Que rostos tão alegres! N’estes dias! Não lembram questiúnculas, nem falam resentimentos; todos se dão as mãos, todos se abraçam: assim o quer o velho pastor, que os segue, santo homem que traz no coração impresso o Evangelho e no semblante estampado o coração.
Deixemol-os entrar e fiquemos nós cá fora de baixo d’uma ramada, a escutar aquella especie de quasi balbúrdia que lá vae dentro.
Quem nos attenderia?... Resignemo-nos a perder o copo de vinho genuíno e a fatia de «pão de ló» a que em taes acasiões ninguem póde esquivar-se, e ouçamos.
Que animação!...

Estes pedem ramos, aquelles, folares; agora e a dona da casa a recomendar ao bom do parocho que deite muita agua benta nas raparigas, e logo são estas que seescondem rindo!
Este arrasta uma cadeira, aquelle deita para a cesta alguns ovos que estão na meza destinados ao Pastor, este ri, aquella zombeteia; e o santo parocho para todos fala, a todos anima, a todos dá o exemplo d’uma jovialidade inoffensiva.
E tão entretidos estão que quasi se esqueceram de que a parochia não finda alli.
Enfim meus senhores, é forçoso sahir; outros vos esperam anciosos, os ricos nas suas salas, os pobres nos seus casebres,
Ide, ide! A todos as boas-festas, a bênção a todas as casas!...»

Transcrição do jornal ‘O Jornal de Fafe’, 1910
Autor desconhecido

1 de março de 2020

CAMINHO DE FERRO “AMERICANO” PODIA TER CHEGADO A FAFE NO SÉCULO XIX


“Americano” do Porto por volta de 1880.


Os carros "americanos", puxados por mulas, sobre via férrea de bitola métrica, foram um meio de transporte para pessoas e mercadorias.
Os carros "americanos", assim chamados por terem sido inventados, em 1832, nos Estados Unidos da América, surgiram na cidade do Porto em 1872 e, dois anos depois ligavam o centro da Póvoa de Varzim a Vila do Conde.



História ferroviária fafense começou há 148 anos

A origem do troço ferroviário Trofa a Fafe prende-se a uma concessão feita ao italiano Simão Gattai, em 11 de Julho de 1871, visando a construção de um caminho-de-ferro “americano”, sobre estrada, ligando o Porto a Braga, com passagem por Santo Tirso e Guimarães.
Em 28 de Dezembro de 1872, o governo alterou as condições da concessão, obrigando ligar o caminho férreo proposto à linha do Minho, por Vizela e Fafe.

«Tendo o governo concedido licença a Simão Gattai, por decreto de 11 de Julho de 1871, para estabelecer um caminho de ferro americano (rail road) entre o Porto e Braga, por Santo Thyrso e Guimarães, sobre as estradas reais nºs 32 e 27;
Pedindo o mesmo Simão Gattai auctorização para empregar locomotivas na exploração do dito caminho; e não podendo esta autorização ser concedida sem que o emprezario se obrigasse a construir o caminho em leito próprio, alterado o traçado e modificadas as clausulas e condições da primitiva licença;
Vista a acceitação de Simão Gattai: Hei por bem modificar e alterar as disposições do decreto de 11 de Julho de 1871, nos termos dos artigos seguintes:
I O concessionario Simão Gattai efectuará á sua custa:
1º Os estudos e a construção de um caminho de ferro de via reduzida com todas as suas dependencias entre um ponto do caminho de ferro do Minho, proximo ao rio Ave e as Taipas, com um ramal de Fafe por Vizella, a entroncar na linha principal entre Santo Thyrso e Guimarães. » (…)

O ministro e secretário d’estado dos negocios das obras publicas commercio e industria assim o tenha entendido e faça executar.

Paço, em 28 de Dezembro de 1872. = Rei. = António Cardoso Avelino.
Diário do Governo nº 4, de 7 de Janeiro de 1873





“Americano” na Póvoa de Varzim por volta de 1880.

Em 1874, por falência de Simão Gattai, a concessão foi trespassada à companhia inglesa “Minho District Railway Company, Limited” e, por despacho de 18 de Fevereiro do referido ano, foi dispensada a construção do ramal de Fafe.
Desta forma foi gorada a intenção de fazer chegar à vila de Fafe um caminho-de-ferro, por tracção animal, transporte este que viria a ficar obsoleto em inícios do século XX.
A “Sala de Visitas do Minho” ficou mais de três décadas à espera do seu caminho-de-ferro; do tão ambicionado melhoramento, que só chegaria em 1907.
Manteve-se o transporte a cavalo e os “trens” de tracção animal, fora dos trilhos de ferro, por caminhos tortuosos de pouca “realeza”…

O “americano”, afinal, não chegou a Fafe…


31 de janeiro de 2020

FESTA EM HONRA DE SÃO BRÁS MAIS DOCE



Em Santo Ovídio, vão chover rebuçados

Tem lugar, este domingo, 2 de Fevereiro, no lugar de Santo Ovídio, mais uma edição da centenária, e outrora famosa, festividade de São Brás, cuja imagem é venerada na Capela de Santo Ovídio desde, pelo menos, finais do século XIX.
O São Brás de Santo Ovídio é uma romaria muito antiga que, ao longo do tempo, foi decaindo.




Até finais do primeiro quartel do século XX, esta importante festividade atraía muitos fiéis vindos de todo o concelho de Fafe e de outras terras vizinhas.
Sendo uma festa religiosa dedicada ao Santo Mártir, protector dos males de garganta, durante muitas décadas manteve a curiosa tradição de lançar “brilhantes” entre outras brincadeiras carnavalescas, para gáudio da rapaziada.

O São Brás foi prenuncio do Carnaval que se aproximava…

Nos últimos anos, para além da celebração religiosa, o Santo foi festejado com vários Encontros de Cantadores de Reis, com a participação de um significativo número de grupos do concelho de Fafe e de outras paragens.





PELA PRIMEIRA VEZ OS REBUÇADOS DE SÃO BRÁS VÃO ADOCICAR A FESTA

Quis a Comissão responsável pela Festa de São Brás, introduzir a oferta dos “rebuçados de S. Brás”, conhecidos pelo seu efeito benéfico para o sistema respiratório, devido à sua composição de mentol.
Ao que parece, esta prática terá começado há cerca de uma década na festa de São Brás na Capela da Quinta do Gato, em Santa Joana, Aveiro.

No alto da Capela de Santo Ovídio, no próximo domingo, véspera do dia de São Brás, serão lançados os “Rebuçados de São Brás” em dois momentos: no final da Missa Solene marcada para as 10h15 e pouco antes da actuação do cantor Fábio Marcelo, pelas 14h30.
A Romaria de São Brás, em Santo Ovídio, termina, pelas 18h00, com uma sessão de fogo-de-artifício.




É quase sempre assim, há tradições que vão cedendo lugar a outras, que não são melhores ou piores… são distintas, e definem mudanças de mentalidades ao longo dos tempos, para uma memória colectiva que deve ser preservada.
Vamos então participar nesta antiga Romaria no emblemático lugar de Santo Ovídio, nas portas da cidade de Fafe.

PROGAMA


5 de outubro de 2019

A REPÚBLICA CHEGOU ATRASADA A FAFE

Antigos Paços do Concelho na actual Praça 25 de Abril

Pelas 11 horas do dia 5 de Outubro de 1910, a proclamação da República foi solenemente declarada da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa.
O resto do país, devido às grandes limitações dos meios de comunicação da época, tardou em conhecer a boa nova.
Por via do telégrafo a noticia chegou à cidade do Porto no dia seguinte e em outras terras vários dias depois. Algumas só no dia 16 de Outubro conheceram a revolução de Lisboa que pôs fim à Monarquia. 

Em Fafe foi o próprio director do semanário “O Desforço”, Artur Pinto Bastos que trouxe a notícia da proclamação da República da cidade do Porto.
Na pacata vila de então, poucos acreditavam no sucesso da revolução, até porque nem todos eram republicanos e as informações eram divergentes.

Foi assim, com quatro dias de atraso, em Domingo 9 de Outubro de 1910, que Fafe improvisou os festejos da implantação da República.
Diz o jornal “ O Desforço” …”eram 3 horas certas da tarde quando a Comissão entrou no edifício dos Paços do Concelho.

Já uma música tocava a «Portuguesa» e a República era aclamada pelos populares. E dirigindo-se às dependências da Administração foi acto continuo lido pelo secretário da mesma snr. Arthur Teixeira da Silva e Castro o auto da posse, investindo na delegacia do governo provisório nesta villa o snr. Dr. Gervásio Domingues D’Andrade”.

Enquanto decorria a cerimónia, fora do edifício dos Paços do Concelho, na actual Praça 25 de Abril, no meio de muitos vivas, duas bandas tocavam a «Portuguesa», ainda provisória.

Com a Câmara apinhada de populares e o Largo da Vila repleto de gente, José Summavielle Soares fez a proclamação da República de uma das varandas.
Depois, os proclamadores saíram para a rua recebendo entusiásticas saudações das ilustres damas de Fafe, que agitavam lenços e atiravam flores.

“A manifestação terminou em frente á bandeira içada na casa da câmara, onde começou. Quando se hasteou a bandeira, o dinamite estrondou nos ares com profusão”.
A Sociedade de Recreio de Fafe hasteou a sua bandeira, cujas cores são as actuais cores da bandeira nacional, que também foi hasteada no Clube Fafense, no Correio", noutros locais públicos e em casas particulares de republicanos.