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6 de setembro de 2020

O OPÍPARO BANQUETE DA INAUGURAÇÃO DO COMBOIO DE FAFE


A Casa do Santo Novo onde foi servido o jantar aos convidados
da inauguração do comboio de Fafe

Após a chegada do primeiro comboio a Fafe, na manhã do dia 21 de Julho de 1907, num dos maiores acontecimentos da história contemporânea local, não poderia faltar um faustoso manjar para os convidados “VIP”. Partilho aqui o distinto menu do jantar comemorativo da inauguração da linha férrea Guimarães-Fafe.

 

JANTAR

«Na nobre casa do Santo, fidalgamente cedida á ilustre commissão dos festejos, foi offerecido, pelas 5 horas da tarde, á direcção e pessoal superior da companhia e a diversos cavalheiros convidados, um opíparo banquete, cujo menu, fornecido pela confeitaria Oliveira, do Porto, foi assim constituído:

Potage creme a la ville de Fafe.

Petits vol-au-vents de Perdreaux aux truffes,

Turbot sauce aux capers,

Piece de boeuf au champignons,

Mayounaise de homard a la modernne,

Galantine de carnad a la Paaurcenne,

Diudonneaux Roti au cresson,

 

DESSÉRT

Panding a la Portugaise,

Glace a la creme et aux fraises,

Selade de fruits au champagne,

Gelée au liquer d’or,

Charlotte Russe a la Chantilly,

Fromage et friuts divers,

Patisserie assorties.

 

VINS

Xeréz, Madére, Collares, Blanc et Rouge, vert Fafé, Básto, champagne, Porto secco, café, cognac et liquers».

 

Ao dessert, o snr. conselheiro Florencio Monteiro, dr. João Leite de Castro, Luiz Dourado, Oliveira Guimarães, Antonio Caldeira e outros brindaram a el-rei, a Reis Porto, a Ferreira de Lima, ao concelho de Fafe, ás damas e á imprensa, terminando o opíparo banquete, em que sempre reinou alegria, pelas 8 e meia da noite, hora a que já nas ruas, havia um extraordinário movimento de gente anhelante de ver as illuminações que pela sua originalidade e bom gosto, eram d’um effeito deslumbrante, feérico, único.

 

A’s 9 horas começou a queimar-se o fogo de artificio que agradou muito, e ás 10, oprefixas entre as acclamações enthusiasticas do povo, ao som da musica e do troar da dynamite, regressou a Guimarães o comboio inaugural.

Na villa, porem, continuaram os festejos, que se prolongaram até deshoras da noite, mantendo-se o povo a apreciar as illuminações, que, como dissemos, eram d’um lindo effeito, d’um brilhantismo raro.»

 

In jornal “O Povo de Fafe”, 25 de Junho 1907

 


 

1 de março de 2020

CAMINHO DE FERRO “AMERICANO” PODIA TER CHEGADO A FAFE NO SÉCULO XIX


“Americano” do Porto por volta de 1880.


Os carros "americanos", puxados por mulas, sobre via férrea de bitola métrica, foram um meio de transporte para pessoas e mercadorias.
Os carros "americanos", assim chamados por terem sido inventados, em 1832, nos Estados Unidos da América, surgiram na cidade do Porto em 1872 e, dois anos depois ligavam o centro da Póvoa de Varzim a Vila do Conde.



História ferroviária fafense começou há 148 anos

A origem do troço ferroviário Trofa a Fafe prende-se a uma concessão feita ao italiano Simão Gattai, em 11 de Julho de 1871, visando a construção de um caminho-de-ferro “americano”, sobre estrada, ligando o Porto a Braga, com passagem por Santo Tirso e Guimarães.
Em 28 de Dezembro de 1872, o governo alterou as condições da concessão, obrigando ligar o caminho férreo proposto à linha do Minho, por Vizela e Fafe.

«Tendo o governo concedido licença a Simão Gattai, por decreto de 11 de Julho de 1871, para estabelecer um caminho de ferro americano (rail road) entre o Porto e Braga, por Santo Thyrso e Guimarães, sobre as estradas reais nºs 32 e 27;
Pedindo o mesmo Simão Gattai auctorização para empregar locomotivas na exploração do dito caminho; e não podendo esta autorização ser concedida sem que o emprezario se obrigasse a construir o caminho em leito próprio, alterado o traçado e modificadas as clausulas e condições da primitiva licença;
Vista a acceitação de Simão Gattai: Hei por bem modificar e alterar as disposições do decreto de 11 de Julho de 1871, nos termos dos artigos seguintes:
I O concessionario Simão Gattai efectuará á sua custa:
1º Os estudos e a construção de um caminho de ferro de via reduzida com todas as suas dependencias entre um ponto do caminho de ferro do Minho, proximo ao rio Ave e as Taipas, com um ramal de Fafe por Vizella, a entroncar na linha principal entre Santo Thyrso e Guimarães. » (…)

O ministro e secretário d’estado dos negocios das obras publicas commercio e industria assim o tenha entendido e faça executar.

Paço, em 28 de Dezembro de 1872. = Rei. = António Cardoso Avelino.
Diário do Governo nº 4, de 7 de Janeiro de 1873





“Americano” na Póvoa de Varzim por volta de 1880.

Em 1874, por falência de Simão Gattai, a concessão foi trespassada à companhia inglesa “Minho District Railway Company, Limited” e, por despacho de 18 de Fevereiro do referido ano, foi dispensada a construção do ramal de Fafe.
Desta forma foi gorada a intenção de fazer chegar à vila de Fafe um caminho-de-ferro, por tracção animal, transporte este que viria a ficar obsoleto em inícios do século XX.
A “Sala de Visitas do Minho” ficou mais de três décadas à espera do seu caminho-de-ferro; do tão ambicionado melhoramento, que só chegaria em 1907.
Manteve-se o transporte a cavalo e os “trens” de tracção animal, fora dos trilhos de ferro, por caminhos tortuosos de pouca “realeza”…

O “americano”, afinal, não chegou a Fafe…


25 de julho de 2018

O PRIMEIRO COMBOIO CHEGOU A FAFE HÁ 111 ANOS






EM 21 DE JULHO DE 1907


O relato da chegada

«Como é bom recordar! Parece que foi hontem e já lá vão três annos! Transcrevemos para aqui parte do que sobre tão grato motivo dissemos no nº 749 do Desforço de 1907; serve mesmo para explicação das gravuras que vão juntas:»

A CHEGADA

«Aos primeiros silvos das locomotivas, tudo rejubila. São duas, conjugadas, que se denominam «Porto» nº 5 e «Negrellos» nº 2, a rebocarem 17 vehiculos. Ao apparecimento, na ultima curva, quando os silvos redobram e o penacho de fumo se torna mais intenso, a alegria é então dilerante, chega ao seu auge o contentamento!

E’ uma hora e 20 minutos quando o comboio entra nas agulhas da estação por entre filas de povo. O enthusiasmo, a esta hora feliz para Fafe, é indescritível!
Aquelle acenar de lenços, aquella animação, aquella vivacidade, aquellasacclamações, tudo aquillo que se não pôde anotar, oh! Era sublime!!
Sublime, sim!!

Nós, que fomos uns pugnadores do caminho de ferro para Fafe, que temos anciado para o nosso torrão natal esse melhoramento indispensável, ao ver chegar o comboio inaugural, fomos apossados de tanta alegria, que quasi se nos estonteia o espírito! Ah! É que víamos triumphar uma das nossa maiores aspirações!

E as bandas fazendo ouvir os seus sons musicais, vibrantes, pareciam exprimir o que nos ia n’alma; o dynamite, estralejando nos ares, annunciou ao longe o nosso enorme contentamento.
No comboio inaugural vinha um grande numero de convidados, de que os jornaes diários teem dado nota e que por isso achamos supérfluo aqui reproduzir.
As locomotivas chegaram adornadas com bandeiras e tropheus, a gosto.
A da vanguarda, a nº 5, trazia a dirigi-la o engenheiro sr. Francisco Ferreira de Lima, que trajava de machinista, e o chefe de tracção e officinas sr. Joaquim Lopes.
Acompanhava o comboio uma banda de musica.
Na cauda vinha uma carruagem-salão, em que tomaram logar, alem do pessoal superior da Companhia e outros cavalheiros, a commissão das festas, que daqui foi a Paçô fazer a espera.










Ao apeiaren-se, o sr. Conselheiro Florencio Monteiro foi o que iniciou os vivas, que proseguiram, correspondidos sempre com ardor.
Em seguida, no estrado, onde permanecia a câmara, depois de trocados muitos cumprimentos, discursa o director da Companhia sr. Reis Porto, que, fazendo o elogio da nossa terra declara aberta á exploração a linha férrea.
Termina por levantar vivas a Fafe e ao seu povo.
Seguiu-se-lhe o presidente da câmara sr. Dr. João Leite de Castro, que discursa sobre os benefícios da linha trazidos a Fafe, melhoramento que há muito todos nós aspiramos, e attribue esse melhoramento á boa vontade do sr. Conde de Paçô Vieira e do extinto Soares Velloso, e simultaneamente, á intelligencia e actividade do sr. Reis Porto. Concluindo, saúda o povo de Fafe.










E’ depois lido o auto inaugural pelo guarda-livros da Companhia sr. Francisco Garrido Monteiro, que, cavalheiros de Fafe, Guimarães, Porto weGraga, assignam.
Depois disto, partiu a comissão das festas, pessoal da Companhia e convidados, seguidos por duas bandas de musica, para a villa. Os vivas, que tinham sido levantados no estrado, proseguem – ao sr. Reis Porto, á Companhia do Caminho de Ferro, engenheiro Lima, aos hospedes de Fafe, e outras individualidades, - que são correspondidos com indiscrptivelenthusiasmo. Immediatamente marcha a corporação dos bombeiros com a sua banda, que tinha feito a guarda d’honra.
Muito povo acompanha»

Reproduzido do “Almanaque Ilustrado de Fafe”, 1911

11 de fevereiro de 2018

A INAUGURAÇÃO DO COMBOIO EM FAFE NA MELHOR IMPRENSA LISBOETA




A prestigiada revista de Lisboa "Illustração Portugueza" acompanhou os trabalhos de construção da Linha férrea, Guimarães a Fafe, e marcou presença o acto inaugural.

“Com desusado brilho, foi inaugurada no dia 21de julho esta nova linha, situada n’uma das regiões mais pittorescas e alcantiladas do Minho.
Pertence este novo troço, de cerca de 22 kilometros, à Companhia do Caminho de ferro de Guimarães e constitue o prolongamento natural da sua rede.

Sae esta nova linha da estação de Guimarães agarrando-se ao magestoso monte da Penha, encimado com a estatua de Pio IX e um pittoresco hotel, e, durante quatro kilometros, sempre subindo, vae-nos mostrando soberbos panoramas que se estendem desde a cidade de Guimarães até ás alturas do Sameiro.
Rodeado um contraforte do monte da Penha, entra-se então no extensissimo valle de S. Torquato.

É deslumbrante o panorama que a vista alcança; admiram-se no fundo do valle, que vamos percorrendo, os campos viçosos cercados pelas pittorescas arvores de vinho, o vinho d’enforcado.

Ao longe admira-se a massa imponente do sanctuario de S. Torquato, que todos os annos dá origem a uma romaria das mais concorridas do Minho.
Ao longe, no ultimo plano, meio esfumadas, mas imponentes, erguem-se as cumiadas do Gerez.

Passamos outro tunnel e entramos na estação de Paçô, situada no ponto mais alto do traçado, a 150 metros de desnível da estação de Guimarães.
A algumas centenas de metros fica situado o solar do sr. Conde de Paçô Vieira, em privilegiada situação.

D’esse ponto começa a linha a descer n’outro extenso e formoso valle, o de Fareja.
É a secção mais difícil e trabalhosa do traçado. Em alguns kilometros accumulam-se enormes trincheiras e aterros. Há n’essa secção pontos de vista deslumbrantes, especialmente no logar do Sevello, em que foi modificado o traçado primitivo, supprimindo-se um tunnel. Perde-se a vista desde as alturas da Penha até às cumiadas de Lixa. Encontra-se a pequenina estação de Fareja perdida na montanha e passados instantes atravessamos uma sólida ponte de pedra situada sobre o pittoresco rio Sousa, que faria o enlevo dos pintores paizagistas. Começa a ultima subida, mais suave, para Fafe, aonde chegamos deixando á nossa direita a importante povoação de Cepães. Pouco antes de entrar em Fafe outro extenso panorama se desenrola á vista, desde as immediações da Póvoa de Lanhoso até Fafe.

Deve-se a remoção das dificuldades da construção d’esta linha ao sr. Conde de Paçô Vieira, quando ministro.
A construção foi dirigida pelo sr. Engenheiro Francisco Ferreira de Lima, que reviu o traçado supprimindo obras de arte importantes, como dois tunneis, e fazendo importantes economias”.

Reprodução integral: “Illustração Portugueza” nº 76 de 5 de Agosto de 1907

“Hemeroteca Digital” Câmara Municipal de Lisboa


A ilustração

Capa 







Aproveito para agradecer o excelente trabalho já desenvolvido pela Hemeroteca Digital da Câmara Municipal de Lisboa. convidando todos os leitores a visitar.