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5 de agosto de 2020

GRAVURA DA SENHORA DE ANTIME, SÉCULO XIX


Foto: Museu dos Biscainhos


Museu: Museu dos Biscainhos

N.º de Inventário: DEP3036 MEP ou 3076 MEP

Supercategoria: Arte

Categoria: Gravura

Denominação: Nossa Senhora de Antime

Autor: Desconhecido Oficina / Fabricante: A Gouveia Féliz, litografia.

Datação: XIX d.C. - Século XIX.

Suporte: Papel

Técnica: Gravura

Dimensões (cm): altura: 22,3; largura: 16,4;Descrição:

Gravura monocromada a traço azul, que representa um retábulo onde se insere a imagem em estatuária da Virgem Maria com o Menino Jesus sob invocação de Nossa Senhora de Antime. A Virgem apresenta-se de corpo inteiro, de pé, com o Menino na mão esquerda e segura um ramo de flores na direita, ambos coroados e vestidos e penteados segundo a moda do século XIX; Nossa Senhora aparece com um vestido comprido, em vez da habitual túnica, e com um manto, as duas peças decoradas com motivos florais, e um véu sobre a cabeça; e o Menino Jesus também apresenta uma espécie de vestido, usual em crianças nobres do século XIX. O retábulo é ricamente ornamentado: as duas colunas são como que constituídas por uma sobreposição de elementos decorativos variados de estilo rococó, onde surgem cachos de uvas, putis, flores, faixas, elementos híbridos fantasiosos, entre outros de difícil caracterização, assim como a parte superior que apresenta um pequeno frontão composto por duas volutas, e ao alto uma espiga de milho (que terá eventualmente um significado relacionado com a localidade da igreja onde está o retábulo).
Incorporação: Outro - Museu de Etnologia do Porto

Fonte: catálogo do Museu dos Biscainhos, Braga

8 de fevereiro de 2018

PROCISSÃO DA SENHORA DE ANTIME Um apontamento do século XIX



O povo aguarda a chegada da Senhora de Antime no centro da vila
Fotogravura do principio do séc. XX 




«SENHORA d’ANTIME

É uma romagem de máxima nomeada no concelho de Fafe e na parte oriental inteira do distrito de Braga. Chama-se-lhe também romaria da Senhora do Sol e romaria da Senhora da Misericórdia, em virtude do fervor das suplicas e do intenso da fé com que os povos se endereçam a esta Senhora, nas faltas de chuvas ou de sol.
A imagem da Virgem é de pedra fina (granito metamórfico) com braços postiços e sem pés nem pernas, nem feitio algum de estatuária, além do rosto unicamente. Tem oito arrobas de peso e está colocada em um tosco andor antigo de oito arrobas também, a que dão o nome de charola da Senhora.

Dá a tradição por aparecida esta imagem no Monte de S. Jorge, entre Fafe e Cepães, e entre a freguesia de Antime igualmente; monte de uma boa légua de comprido e meia légua de largo, onde abundam grandes pedreiras de pedra fina (granitos metamórficos especialmente), d’envolta com granitos efusivos duríssimos, entre os quais aparecem, às vezes, belos granitos porfiroides; granitos explorados todos incessantemente e os metamórficos sobretudo, para as construções nas vizinhanças de Fafe em redondo, até uma légua às vezes.

Também neste mesmo monte «S. Jorge Magno», venera o povo o penedo da pegadinha, em comemoração da crença que tem, das pegadinhas que no dito penedo deixara impressas o jumentinho da Senhora, indo ela uma vez a cavalo por estes sítios.
Celebra-se a função da Senhora de Antime, com vésperas, no 2º domingo de Julho, na sua freguesia reitoral de Santa Maria do mesmo nome, a um quarto de légua para o sul da vila de Fafe; fazendo-se pela manhã o aniversário das almas, com seu sermão apropriado à festa. No domingo de manhã, por volta das 10 horas, sai de Antime para a igreja de Fafe a procissão da Senhora, fazendo-se então nesta igreja matriz exposição do Sacramento, com sua missa cantada, e o competente sermão, e por volta das 6 horas da tarde regressa para a respectiva freguesia, no meio de numerosíssimo concurso de romeiros, como na sida de Antime para Fafe.

Era outrora ainda mais galhofeira do que hoje, esta romagem de Antime: chegava quase a delírio o afervorado das salvas da companhia de mosqueteiros da procissão, não só na saída dela e na volta dela mas sobretudo no acometimento de um castelo fictício, de propósito erigido para dar mais realce à função e para a tornar mais estrepitosa; o castelo a final tomado era abrasado em chamas pelos mesmos mosqueteiros, depois de fingido um aparatoso conflito de sitiantes e sitiados, e vencido a final o Rei mouro acastelado.
Dá a tradição por origem desta fingida peleja, muito victoriada dos romeiros em chusma, a comemoração de antigos feitos dos povos da localidade na expulsão dos mouros, quando era senhor e povoador de Fafe, nos primeiros tempos da nossa independência, D. Egas Fafes, filho aguerrido do aguerrido D. Fafes Luz, alferes do Conde D. Henrique, primitivo tronco genealógico da nossa dinastia afonsina.

No meio das folias e extravagâncias da romaria, têm ficado algumas vezes esmagados alguns dos condutores da charola debaixo do seu excessivo peso. Costumam ser 16 em geral, para pegarem revezados aos oito braços, ou banzos da dita charola da Senhora, os valentões da procissão, valentões que se oferecem com antecipação de um ou dois anos às vezes, e que não conseguem esta graça especial dos mesários da Senhora, senão a poder de súplicas, empenhos e solicitações.

Não é todavia a mera ostentação de forças e de robustez de corpo a que assim faz deprecar a graça de carregar com os banzos da charola aos ombros. É especialmente porque têm para si os mancebos da localidade (Fafe e Antime sobretudo) não serem bem-sucedidos nos seus casamentos se não pegarem primeiro ao andor da Senhora. Nessa ocasião, para eles da maior expansão de coração juvenil, costumam colocar esses mancebos dos banzos os seus ramos de perpétuas na charola, aos quais se dá o nome sacramental de pinhas da Senhora de Antime.»

J.J. da S. Pereira Caldas (Braga)

Transcrito (com alteração ortográfica) do:
“ALMANACH DE LEMBRANÇAS LUSO-BRAZILEIRO” de 1859
Por: Alexandre Magno de Castilho
Lisboa, Imprensa Nacional, 1858
Páginas 274 e 275


7 de julho de 2011

ESPECIAL SENHORA DE ANTIME


SENHORA DE ANTIME A MAIOR ROMARIA DA REGIÃO








UMA ROMARIA CENTENÁRIA




As primeiras referências à romaria da Senhora de Antime surgem na segunda metade do século XIX, através da pena do grande romancista Camilo Castelo Branco que, na sua obra “Memórias do Cárcere”, editada pela primeira vez em 1862, faz a seguinte descrição: “É de saber que Luis Lopes, António Manuel e José Vieira, que ainda vive, foram em anos verdes, três denotados jogadores de pau, e tamanho terror incutiram nas cercanias de Fafe que bastaria a qualquer deles, para vencer a sua, mandar o pau e não ir, como o rei da Suécia fazia às botas.



As mais memorandas façanhas dos Vieiras tinham o seu teatro na celebrada romaria da Senhora de Antime. Aí apareciam os três campeadores mascarados, como era de uso em mancebos de famílias de alto porte. As máscaras afiavam as chancas de outros chibantes, e deste gracejar de mau agouro procedia o partirem-se as caras por debaixo das máscaras, como se as não quisessem para outro mister, ou as sacrificassem à padroeira da romagem, como os índios se estiram sob as rodas das carroças dos seus ídolos. A Senhora de Antime é de pedra e pesa com a charola vinte e quatro arrobas. Os mais possantes moços da freguesia pegam ao banzo do andor. Aconteceu, há anos, ser um dos que puseram ombro ao andor mal visto dos outros, e de um principalmente. Ao dobrar de uma esquina o moço odiado sentiu-se vergar sob as vinte e quatro arrobas de pedra, e morreu instantaneamente esmagado. O principal inimigo do morto foi logo conhecido e varado por uma choupada, que lhe fez espirrar o sangue e a vida à charola da imagem. Tirem disto a limpeza de consciência e religiosidade daqueles sujeitos, que ali vão dar testemunho de seu fervor, com a Senhora de pedra aos ombros!”.




O prematuramente desaparecido investigador Miguel Monteiro defendeu que a procissão de Nossa Senhora de Antime tem raízes num “ritual muito antigo praticado pelos rapazes casadoiros, cumprindo assim o rito da passagem de adolescentes para o estádio dos adultos, num hino à fecundidade que lhes é esperada pela comunidade, simbolizado na Ara e no icon.” O mesmo autor baseou esta interpretação no facto da Senhora de Antime ser também designada por Senhora do Sol, numa manifestação mágico-simbólica à estrela principal do sistema solar, como “valor masculino a quem são atribuídas capacidades fecundantes”.

Miguel Monteiro escreveu ainda: “Com a cristianização da região, procurou-se substituir este ritual pagão por outro mais adequado à simbologia cristã, surgindo assim a Nossa Senhora de Antime como um culto de substituição, ligado provavelmente ao mosteiro de Santa Maria de Antime, documentado já no ano de 1120, tendo o icon pagão primitivo sofrido uma transformação plástica, colocando-lhe uma cabeça e os braços, de modo a dar-lhe as feições de uma Santa Cristã.”

Em 1874, Pinho Leal, no seu Dicionário Corográfico descreve a imagem da Senhora de Antime como sendo de “granito metamórfico, com braços postiços e sem pernas nem pés, nem feitio algum de gente, além da cara.”

Será um pouco arrojado, quanto a mim, atribuir uma datação anterior ao cristianismo à imagem desta Senhora, contudo, seria muito interessante fazer-lhe um estudo meticuloso que certamente dissipará algumas teses. Do que não temos qualquer dúvida é que a imagem em pedra de Nossa Senhora de Antime é muito antiga, talvez até, um pouco anterior ao século XV.


Duas procissões que se fundem numa só depois da saudação das Senhoras

Não sabemos ao certo quando se iniciou a prática das duas procissões; ou seja a que sai da Igreja Nova de S. José com a Senhora da Misericórdia ao encontro da outra procissão que partiu da Igreja paroquial de Antime com a Senhora homónima. É na ponte de S. José que as duas Senhoras se encontram e saúdam curvando-se. Seguem depois em direcção a Fafe num único cortejo. Depois de fazer uma passagem pelos Paços do Concelho, onde autoridades civis fazem a devida vénia às Senhoras, a procissão, uma das mais concorridas da região, segue para a Igreja Nova, de onde regressa, no final da tarde, antes de anoitecer, à Casa de origem.

Actualmente o andor da Senhora de Antime já não pesa trezentos e sessenta quilos e nem sempre os seus carregadores são jovens possantes, muito menos carregam a Senhora para poderem casar. Certo é que os concorrentes para tão árdua tarefa de carregar, de pés descalços, um andor, ainda assim muito pesado, de Antime para Fafe e vice-versa, fazem-no com muita devoção e como forma de pagamento de graças concedidas pela Senhora mais devotada em todo o concelho.

Apesar da tradição ter sofrido alterações, e poucos serão os que ainda comem o anho assado nesta ocasião, certo é que à romaria da Senhora de Antime que hoje corresponde também às Festas do Concelho, acorrem dezenas de milhares de peregrinos numa manifestação religiosa que se realiza ininterruptamente à pelo menos cento e cinquenta anos.





A Tradição


A propósito das Festas da Senhora de Antime, Paulino da Cunha escreveu no Almanaque Ilustrado de Fafe, em 1909, o seguinte: …”no alto de um cerro, sobranceiro à freguesia de Armil, dominando-a, um penedo, onde fizeram, há que anos! Num baixo-relevo, a picão de pedreiro, de um decímetro de comprimento e meio de largura, a configuração de um “bidé”, poderia de algum modo descobrir a origem de tão arreigada devoção popular. Esta é a pegadinha de Nossa Senhora, que passou por aqui para ir para Antime. Veja; não se parece com o pé da Senhora? Por muito grande que fosse a minha vontade de ver, foi-me impossível notar a semelhança, afirmada por todos e muito conhecida também de muitos que ainda a não viram: é o penedo da pegadinha. Penso todavia que tal pegadinha andará envolvida em alguma história tradicional, que já morreu, com a geração passada, que a não pode transmitir à presente, graças talvez à força da civilização. Não sei. O que afirmo é que a Festa da Senhora de Antime é a festa de Fafe por excelência. Nesse dia todas as famílias, não excluindo as menos abastadas, vestem um fato novo e comem o anho da praxe, a única parte da tradição que ainda hoje respeita.

Ornamentações dos anos 40 - Séc. XX

Celebra-se sempre no segundo Domingo de Julho, nas duas Igrejas, a de Antime e a de Fafe, culminando com uma procissão, que é subdividida em seis. Logo de manhã cedo, a uma hora devidamente aprazada ela sai da Matriz de Fafe dirigindo-se para o limite (da freguesia) e ali aguarda, ao encontro da Senhora que sai da igreja paroquial de Antime, a Senhora que é transportada, pelos rapazes mais valentes da terra. E é este andor que o povo quer ver, acompanhar, seguir, rodeá-lo, acotovelando-se e calcando-se numa religiosidade curiosa e comovente.

À tarde, aquela procissão segue no sentido inverso, acompanhada da que pela manhã a foi esperar. Ao chegarem ao Lombo pousam no solo os andores e encostam o palio e as cruzes aos derreados muros dos campos para, à vontade assistirem todos à queima dos “bonecos” e do “castelo”, gáudio do rapazio local. Era aqui que, em destaque, se colocavam os que mais desejavam ser vistos de roupa nova. Mas o costume tende a desaparecer. A procissão lá segue depois para a sua igreja, num pitoresco encantador e até poético ambiente, deixando a consolação na alma piedosa do povo e enchendo de alegria o coração da mocidade.”




A Lenda


Diz a lenda que certo dia, para os lados do Monte de S. Jorge, a imagem de Santa Maria foi encontrada por pedreiros que trabalhavam no local. De imediato a notícia foi espalhada e populares das freguesias de Fafe e Antime acorreram ao local reivindicando, ambas as partes, a posse da imagem. Após acesas discussões, os populares de uma e de outra freguesia acordaram que a imagem da Senhora ficaria a pertencer à povoação para onde, espontaneamente, se dirigisse um carro de bois desgovernado, transportando a tão disputada imagem. O carro de bois acabou por tomar a direcção de Antime, onde foi edificado um templo dedicado à Senhora que adoptou o nome da localidade. Entretanto, os de Fafe não teriam gostado muito da ideia de perder a posse da imagem e convenceram aos antimenses de, pelo menos uma vez no ano a senhora seguisse em procissão até Fafe e lá permanecesse, regressando a Antime antes do anoitecer.

À sempre um fundo de realidade nas lendas, prova disso é que em cada segundo Domingo de Julho, desde há muitos anos, a Senhora de Antime é deslocada em procissão entre as duas freguesias.

AS FESTAS DA SENHORA DE ANTIME EM 1927


Igreja paroquial de Antime, anos 20 do século XX
 «Pleno sábado! Como que por milagre desaparecem a chuva e o frio impróprios da época e, tendas diversas marcam os seus lugares no grande largo da vila. À hora precisa, o “exercito de zabumbas invade as ruas, e as nuvens negras talvez por influencia do estampido das peças, retiram em direcção ao sul! O Leonardo e o Gago (este de Mondim), dois regimentos diferentes, dividem-se. O deste é mais ousado… que o daquele, e a multidão então rodeia-o, aplaude-o, admira-o! Verdadeiro mimo durante o dia e noite aquele tímpano com descantes dos 90 p. c. de Silva Pinto. E, enquanto em Antime se realizava o importante festival noturno, na vila passavam-se agradavelmente horas e horas, disfrutando-se diversões não constantes no programa.
O dia 10 apresenta-se convidativo. Automóveis e camionetes chegam a todos os instantes, cheias. Os comboios vêem repletos. E, pela vila, vão-se então espalhando milhares e milhares de pessoas. O espaçoso largo, com os toldos, barracas etc., oferece um aspecto interessante. Pelos largos e ruas centrais, tudo é ostentoso, alegre, festivo! Há bandeiras profusas a tremular!
Dés de Julho, dia da grande festa, dia da Senhora de Antime – formosa imagem que tem muitos devotos, uma multidão enorme que a adora. E senão, é ver como a acompanham milhares de pessoas cheias de crença, de fé, de respeito – na vinda e no regresso. É ver como rodeiam a sua charola no Lombo, enquanto lá se queima o tradicional Castelo, se queimam bonecos e sobem ao ar estrondosas girândolas, enquanto cortam o espaço aeróstatos, que vão levar ao longe os ecos da crença de uma imensa multidão que se estende por todo aquele pitoresco local e de uma terra que condignamente sabe homenagear a venerável imagem!
Depois do concerto das muitas e reputadas bandas durante a tarde e de grande numero de diversões no centro da vila, o regresso a Antime com esse arraial no Lombo – epilogo das festas diurnas – foi verdadeiramente grandioso.
As despedidas, aquela subida lenta da costeira de Antime – o sol a beijar o manto cor de céu da imagem e a brisa a oscular-lhe a face mimosa e bela, como a borboleta a flor – tudo isso dá àquele remate da festa um tique caracteristicamente poético.

Dés de Julho, dia da grande festa, da tradicional festa da Senhora de Antime!

Não se pode descrever em poucas paginas o que ela foi!

Numeros belos como o das tricanas no jardim – fogo aquático, fogo preso, fogo do ar, conjunto de cinquenta mil lumes expostos por Constantino Lira, de Felgueiras, nos largos e ruas principais, tudo isso foi soberbo!

Três horas da madrugada! Termina o fogo preso. E a lua luminosa, que lá de cima assistiu a tudo animadamente, ficou estupefacta com aquela girândola deslumbrante de remate: e tanto, que ia transmitir ao mundo tanta magnificência presenciada!

Os galos cantam! Os descantes e tocatas continuam delirantemente!

Rompe o dia, é nascido o sol…

As bandas retiram então dos seus coretos, e as trinta mil pessoas que justamente aclamaram os distintos pirotécnicos Fernandes & Filho, de Lanhélas, debandavam com saudade, sonolentas… mas satisfeitas…

E estava assim terminada uma das mais imponentes festas que se realizam em Portugal!»

IN: Almanaque Ilustrado de Fafe 1928 p. 122 e 123





6 de julho de 2011

A Senhora de Antime na transição da Monarquia para a República


A romaria de Nossa Senhora de Antime é, pelo menos, desde meados do século XIX, a manifestação religiosa mais concorrida do concelho de Fafe. As primeiras referências escritas conhecidas remontam à segunda metade de oitocentos. A imprensa local da época fala-nos em “sumptuosas” festividades, destacando a procissão sempre muito assistida.

Façamos uma breve viagem até Julho de 1910, cerca de três meses antes da proclamação da República, na recta final de um regime monárquico secular. O Povo andava triste, desanimado e descontente com as grandes dificuldades sociais e económicas que se faziam sentir; Fafe não foi excepção e, pelos vistos, em 1910 não esteve muito motivada para festas. Alguns jornais locais da época: “Jornal de Fafe”, “O Desforço” e “O Povo de Fafe”, fazem alusão às festas da Senhora de Antime. “O Desforço” de 7 de Julho daquele ano relata o seguinte: “É esta a imagem (gravura aqui reproduzida) que todos os anos, desde tempos remotos, costuma vir em charola, aos ombros de oito robustos mancebos em procissão… este ano estava para ser no Domingo próximo descomunais festas, que, por imprevistos redundaram em nada. Depois da última resolução, disse-se que já nem a sobredita imagem cá viria, mas à última hora resolveram traze-la com pequeno festejo, para não perder a posse. Falava-se em modernizar o sistema da condução, não sabemos porém como virá.”

O número seguinte deste semanário, datado de 14 de Julho de 1910, diz: “À última hora a festa da Senhora de Antime, teve, ainda assim, umas vésperas animadas, queimando-se bom fogo do ar e preso. O arraial teve bastante concorrência. No Domingo a procissão perdeu um pouco a sua tradição, porque não foi daqui andor algum esperar a Senhora ao Lombo, esta não trouxe a acompanha-la Santo algum. Veio na charola, conduzida por mancebos e ladeada pelas autoridades. No regresso também se não queimou no Lombo o “castelo”. O jornal “Povo de Fafe” refere que se “queimaram no Lombo alguns bonecos e tocou uma banda de música”. Voltando ao Desforço o redactor acrescentou: “O pitoresco desta festa é a tradição, tirando-lha, perde o valor”.

Os outros jornais aqui mencionados confirmam as dificuldades, ultrapassadas, para a realização das festas da Senhora de Antime, em ano de mudança de regime político.

Em 5 de Outubro de 1910 os republicanos tomaram o poder. Fafe celebrou também com grande euforia o acontecimento que mudou radicalmente a História de Portugal.

Embora de forma pouco exuberante, em 1911 as festas da Senhora de Antime aconteceram sem incidentes. Os jornais locais daquele primeiro ano de novo regime político não deram destaque às festividades, apenas referem. De forma ténue, um arraial no Lombo, onde tocaram duas bandas de música e se queimou algum fogo preso e de artifício.

Não obstante as dificuldades, Fafe nunca deixou de honrar a tão venerada Senhora de Antime, mantendo a tradição de traze-la a Fafe uma vez por ano, quase sempre no segundo Domingo de Julho, ininterruptamente há pelo menos cento e cinquenta anos.