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23 de fevereiro de 2018

FAFE NA REVOLUÇÃO DO MINHO (3)

Igreja de Arões S. Romão
Foto: DGEMN


O ATAQUE ÀS TROPAS EM GUIMARÃES

«Marchámos no dia seguinte para Fafe, onde nos receberam com repiques de sinos e vivas entusiásticos. Depois de comer marchámos para a Portela de Arões, por se dizer, já à saída de Moreira, que era lá onde estava a tropa, indo já a esse tempo uma grande divisão de povo, que se tinha reunido em Moreira, e lá ficamos aquela noite, sem nada ainda lá se encontrar, continuando-se a fazer balas e emassar pólvora como em Moreira.

 Resolvemos ali ir atacar a tropa a Guimarães no dia seguinte. Como na véspera do ataque os de Fafe se apresentaram na Portela formados em ordem militar, e eu supus que era tropa firme, e uns grandes guerreiros, por terem sido voluntários, julgo que dos do pataco no tempo das linhas ou cerco do Porto, reparti-lhes pela manhã a porção de pólvora, que tinha recebido como presente de sujeitos da mesma vila de Fafe, e, depois de ouvirmos missa por ser dia santificado, marchámos pelas 11 horas para Guimarães.

Determinei eu que os de Fafe descessem pelo convento da Costa, e atacassem primeiro, principiando a bater fogo pelo Sul, os de S. Torcato, que estavam postados na Madre de Deus em seguida pelo norte os das Taipas que vinham por Stª Luzia, pelo poente, e eu marchei pelo centro, do lado do nascente, direito ao Cano.

Os guerreiros de Fafe meteram-se dentro do convento da Costa, a longa distancia do castelo, e de lá começaram a fazer fogo pelas janelas, contra as ordens que eu havia dado, e por mais que lhes fiz sinal para descerem a Guimarães não fui capaz de os desentocar dali, ainda mesmo depois de lhes mandar dois próprios um atraz do outro; tal era a coragem desses valentes!! E o mesmo aconteceu com os de S. Torcato.

Vi-me pois obrigado a principiar eu o fogo para o castelo pelo sul da arsella, a distancia de um tiro de caça ou pouco mais. Como a posição em que me postei era elevada e a descoberto, começaram a cruzar ali as balas sobre nós, tanto as da tropa do castelo de poente para nascente, como as dos de Fafe de sul para norte, e as dos de S. Torcato de norte para sul, e nós a servirmos de alvo a todos, de sorte que nem pudemos descer abaixo, nem sustentar-nos neste ponto arriscadíssimo, cobertos de balas como estávamos, porque de todos os três lados nos faziam fogo directo.


Castelo de Guimarães


 Passei então à direita ou ao norte pelos quintais para a rua da Arsella com direcção ao Cano, por onde tinha mandado parte da minha divisão, mas como levámos pouca pólvora em breve se acabou, e abrandou o fogo do nosso lado. Perguntei em seguida aos rapazes quantos cartuchos tinha cada um, e responderam-me uns que tinham três e outros dois, fiz parar o fogo, e receando que a cavalaria avançasse a cutilar o povo na retirada das ruas e dos quintais por falta de munições, passei-me com eles para um alto no fim da rua, e me postei ali à espera para o cobrir na saída.

Daí por um pouco   saiu com efeito uma força de cavalaria pela rua fóra, e deixando-a aproximar a pequena distancia por estarmos embuscados na pequena escava de uma pedreira, mandei dar-lhe uma descarga, que a fez fugir logo a galope, deixando a rua perfeitamente livre, e começou depois a sair todo o povo sem perigo.

Terminado o fogo retirámos para S. Torcato, onde pernoitamos, sem nada lá comer por não haver coisa alguma, e no dia seguinte marchámos para Vieira sem também nada até lá comer por não encontrarmos pelo caminho, que nos pareceu bem mais extenso por causa do jejum forçado de dois dias.»

IN: Apontamentos para a história da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, Por Pe. Casimiro José Vieira, Braga, Typographia Lusitana, 1883. 

18 de fevereiro de 2018

FAFE NA REVOLUÇÃO DO MINHO EM 1846 O Relato do Padre Casimiro (2)



Ermida da Lagoa



Perseguição da Lagoa a Fafe

« Junto o povo na Lagoa depois de andada uma grande légua por aquelas íngremes paragens, marchamos a Moreira de Rei com a mesma melodiosa música dos businões. Como eu, porem, corria mais que os outros, por estar persuadido que ia apanhar os soldados à unha e por me lembrar que, ficando com as armas deles, me podia depois bater com toda a tropa de Portugal, ia sempre na frente só e a grande distância do povo.
Antes de mim e sem eu sentir, tinham marchado dois rapazes corajosos e desembaraçados, e próximo a Moreira, que distava da Lagoa outra grande légua, fizeram-me sinal ainda de longe que já avistavam a tropa. Hesitei um instante, por não distinguir se pertenciam à tropa ou ao povo, mas lembrando-me que nem a cavalaria seria capaz de me apanhar, correndo eu em caso de perigo por alguma ladeira abaixo, marchei a eles e me mostraram a tropa, parte já assentada e parte a assentar-se, para descansar no fundo da encosta a distancia de tiro de caça.

Igreja Paroquial de Moreira do Rei


Disse-lhes então em voz alta – rapazes aqui está o padre Casimiro, comandante do povo de Vieira, a quem procurastes para prender; ou vos rendeis ou nenhum de vós fica hoje vivo – Logo se puseram todos a pé, mas como não deram sinal de se render, disparei para eles a pistola de cavalaria que levava, e cada um dos dois rapazes que estavam ao meu lado disparou igualmente a sua clavina, e a tropa nos respondeu com uma descarga. Carregámos de novo e repetimos outra descarga, a que a tropa respondeu do mesmo modo.

 A este tempo chegou o povo, que ficara todo na Lagoa, e começaram então as grandes descargas de lado a lado, e comecei eu em seguida com voz muito forte e sonora a gritar ao povo das freguesias vizinhas – toquem os sinos a rebate, acudam, acudam à estrada, que lá vai uma grande malta de ladrões, cerquem, cerquem, acudam à estrada, toquem os sinos a rebate.

Aí começaram logo os sinos a rebate em todas as freguesias, e o povo a correr à estrada com as armas que cada um tinha mais à mão, e eu marchei pela direita da estrada pelas matas abaixo a correr quanto podia, para lhes tomar a frente, animando todo o povo que ia saindo.

Marchou-se daí em diante em descargas cerradas, a légua desde Moreira até Fafe, avançando o povo quanto podia, e fugindo a tropa com igual velocidade em continuas descargas, de sorte que só à entrada da grande planície da Cumieira, subúrbios de Fafe, pude pôr-me ao lado da tropa, marchando eu pela planície e a tropa pela estrada da esquerda à distancia de tiro de pistola, porque entre mim e ela metia-se apenas um rego ou pequeno ribeiro.

Apareceu-me no princípio da Cumieira um rapaz da Vila acompanhado por um pequenito, o qual eu mandei que fosse de carreira à torre de Fafe tocar os sinos a rebate, e não tardou a ouvirem-se.
Passei a longa planície de toda a Cumieira, próximo sempre da tropa, dizendo-lhe de contínuo em voz alta quem era, e em toda ela, indo a descoberto, não me deram nem uma única descarga.



Sineiras da Igreja Matriz de Fafe


 Ao subir a tropa da Ranha para cima à entrada de Fafe, sai eu de frente a toda ela numa leira sobranceira à quelha, por onde ela subia e lhe repeti a fala que havia feito do alto de Moreira, acompanhado ali somente pelo rapaz de Fafe, por o povo vir atrás da tropa.
Como me não responderam, parando apenas todos os soldados e oficiais a ouvir-me atentamente o que lhes dizia, disparei-lhes de novo a pistola e nem então me deram uma descarga, retirando-me em seguida para perto da estrada à entrada de Fafe, e assentando-me a vê-los passar perto de mim. O rapaz de Fafe vinha saber o motivo daquele alvoroço. Porque em cada lugar ouviam-se descargas ao longe, e quase no mesmo instante ouviram-se já perto, tal era a velocidade, com que corria tanto o povo como a tropa.
Parou então o fogo por um pouco, enquanto a tropa comeu alguma coisa em Fafe, e nós também nos arredores.»


Ponte do Ranha



CONTINUA…


 IN: Apontamentos para a história da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, Por Pe. Casimiro José Vieira, Braga, Typographia Lusitana, 1883. 

17 de fevereiro de 2018

FAFE NA REVOLUÇÃO DO MINHO EM 1846 O Relato do Padre Casimiro (1)

Aspecto da igreja de S. Gens



Começamos aqui a transcrição dos relatos, em território fafense, que o Pe. Casimiro José Vieira, líder destacado na revolução popular “Maria da Fonte”, escreveu no seu livro: “Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte”, publicado em 1883.

Por diversas vezes, Fafe foi palco da guerrilha entre as forças populares e as tropas de Costa Cabral.

No seu trabalho, Pe. Casimiro, “o guerrilheiro”, inicia a narração dos acontecimentos em território do actual concelho de Fafe, com um episódio ocorrido em terras de S. Gens, que passamos a transcrever:

«(…) Chegando depois às Chãs perto de S. Gens, encontrámos aí outra força de povo armado.
Perguntaram-nos por novidades, disse-lhes o que me pareceu melhor para os animar, mostrando-me sempre interessado, como com efeito estava, em que o povo vencesse, para que não entrassem em desconfiança, por me terem visto ir para baixo e voltar logo para cima.
Dei-lhes também os conselhos que julguei mais acertados para o bom êxito do ataque à tropa e me despedi.
Tendo nós andado pequena distancia, aí vem o povo a correr sobre nós, dizendo com vozes de desconfiança – Alto, alto, parem aí!!
Logo entendi que estávamos com o aperto porque eu já esperava, mas mostrando que a consciência nada me remordia, como com efeito assim era, marchei também a galope para eles e muito alegre no exterior mas muito triste no interior.
 Diziam eles – Não é nada consigo, é com esse que aí vai, façam alto, havemos de matá-lo, porque é espião cabralista, que ontem passou para baixo. Retire ao lado para o matarmos.
A isso respondi eu, sem saber ainda, quem ele era – Antes de o matar ouçam-me.



Aspecto da Igreja Paroquial de S. Gens


Estando o movimento popular circunscrito a 4 léguas somente, desde Braga até Vieira, estamos perdidos, porque a tropa, que é muita nos abafa em pouco tempo, é preciso que a sublevação se estenda, não só a todo o Minho, mas, pelo menos também a Trás-os-Montes e isso com a maior brevidade. Este homem vai fazer a revolução na província de Trás-os-Montes e por consequência é para nós um grande prejuízo matarem-no – Lidei quanto pude para o salvar, mas o povo ateimava sempre, que era falso, e que havia de ser morto.

Apeou ele e atirando a capa para o lado, ofereceu-se a ir na frente do povo para o fogo, armado ou desarmado, que se obrigava a todos os sacrifícios. Então um deles, que estava também para o matar, de arma aperrada e semblante carregado, mas que se convenceu de que eu tinha razão, disse-me baixo – Fie o homem senão é morto.
- Disse eu então – Pois bem eu fico por este homem – Olhe lá no que se mete!! Replicaram eles. Sei que é homem de bem, que não me há-de deixar ficar mal, e eu cá fico na terra para pagar por ele – acrescentei eu e então o deixaram.


Vista parcial da Chã de S. Gens


Soube depois que o homem era morgado do Serrado de Monte- Alegre, ia de bigode e pera o que era perigoso para a segurança pessoal.
Póde ser que tenhamos mais algum encontro – disse-lhes eu – e para que não haja perigo, quero que me deem dois guardas. – Logo se aprontaram dois rapazes desembaraçados, e muito contentes, para nos acompanhar, e marchámos.

Chegados a S. Gens disseram eles – Agora não há perigo, porque vêm aí os de Vilar e outros vizinhos, todos conhecidos e por isso não é necessário acompanhá-los mais.
Pegou então o morgado em dois pintos e deu um a cada um deles, mas nenhum aceitou e se despediram.

Declarou então o morgado, que trazia uma porção grande de pólvora e chumbo para caça em cima do cavalo em que montava o criado, e eu disse que a tirasse fora, porque se o povo descobria tal, ninguém lhe valia. Indo ele então para a  atirar fora, disse o Pereira, que me acompanhava, isso por modo nenhum, nesse caso levo-a eu; eu não tenho medo.

-Pegou pois dela, atirou-a acima da besta em que montava e a levou para Vieira.
Por toda a estrada encontrámos sempre diversas partidas de povo, uns muito contentes a cantar, outros deitando-se e dizendo, nada de ir para a guerra; que nos importa cá a nós a tropa, essa que se bata com outra, nós somos cá para empregados da terra, esses havemos de dar cabo deles, custe o que custar, vamos mas é dar fogo à Justiça, que nos leva tudo. (…)»

IN: Apontamentos para a história da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, Por Pe. Casimiro José Vieira, Braga, Typographia Lusitana, 1883.